Nathaniel Whispers


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Que tal darmos uma volta em 1955, quando tudo isso começou?

Verão de 1955— Nate, não seja tão petulante. Achei que estivesse animado para viver com seus avós.— disse de forma paciência, porém firme.Era incrível a capacidade daquela mulher de se manter calma em qualquer situação. O menino desejava ter aquele tipo de temperamento quanto crescesse, mas no momento estava irritado. Amava seus avós, isso era um fato, mas não queria ter que passar o resto de sua vida naquela cidade "barulhenta e cheia de gente ruim" como sua mãe costumava dizer, preferia ficar em Austin com seus amigos assistindo bug's bunny e conversando sobre como garotas eram chatas, mas infelizmente não havia nada que ele pudesse fazer. Tinham acabado de desembarcar do avião e o único jeito que encontrei de lidar com isso era se certificando de que ficaria com a cara mais emburrada que senti durante todo seu tempo ali.Ao chegar no centro da cidade o garoto teve uma grande surpresa; o lugar era barulhento sim, mas não de um jeito ruim como imaginava. Nunca tinha visto algo assim na pequena cidade onde costumava viver. Seus olhos brilhavam em fascínio com todos aqueles letreiros e prédios de tamanhos exorbitantes.
E o som
aho som.Centenas de jukebox tocando músicas de todos os tipos, mas a que se destacava entre elas era Maybellene do grandioso Chuck Berry, a mais nova sensação do Rock n' roll, que mais tarde viria a se tornar a maior inspiração de Nathaniel.Toda aquela energia caótica era algo mágico na visão da criança. Pela primeira vez estava se sentindo verdadeiramente vivo.Foi naquela tarde que Nathaniel Whispers se apaixonou verdadeiramente pela música.- -1963O garoto se sentiu como uma criança novamente. Sabia que talvez estivesse fazendo uma grande birra após ouvir um "não" de sua mãe, mas quem poderia culpa-lo? Estava sendo obrigado a desistir de seus sonhos, senti como se estivesse assistindo todo seu futuro brilhante se despedaçado diante de seus olhos. Não deixaria isso acontecer. Não enquanto o sol ainda brilhasse no céu. Não enquanto o mar tocasse a areia. Não enquanto estiver vivo.Naquele dia, havia feito uma audição com uma gravadora em ascensão que lhe prometeu a todos os holofotes do mundo. Tinha que ser muito burro para não aceitar uma proposta antiga, mas sua mãe tinha que estragar tudo. Como ainda era menor de idade precisava de autorização para assinar o contrato, autorização essa que lhe foi negada.Em um momento irracional decidiu pegar seu carro e partir para a rota 66 rumo a lugar nenhum. Não sabia para onde estava indo, queria apenas dirigir o mais rápido que podia com a esperança que o vento levasse sua tristeza embora.Acabou descontando a raiva no volante do cadillac el dorado assim que Johnny B. Goode começou a tocar no rádio. Aquela música maldita. Aquela mesma música que tocou em sua audição. Mas não mudou de estação, queria sentir aquela dor por inteiro. Ele sabia que merecia ser lembrado de que nunca seria nada além de um ninguém. Nunca seria seu nome que seria nos grandes letreiros de Las Vegas.Trocou a marcha e arriscou ir cada vez mais rápido. Esperava que a adrenalina substituísse a angústia de algum jeito.O jovem estava tão imerso em seus pensamentos depressivos que nem ouviu quando acidentalmente mudou de faixa e começou a andar na contramão.Sentiu sua visão embasada por conta das lágrimas e passou uma das mãos ali para limpa-las, mas de repente algo além disso incomodou seus olhos. Era uma luz forte e perigosamente perto demais.A última coisa que senti foi seu corpo sendo lançado contra o parabrisa e milhares de pedaços de vidro queimando sua pele.No dia seguinte, a imagem do carro vermelho escarlate gravemente quebrado contra um caminhão estava estampado por todos os jornais da cidade.- -Não existem palavras suficientes que consigam descrever o que Martha sentiu. Seu único filho tinha partido e não tinha um dia em que a mulher não se sentia culpada por seu acidente.Mas havia uma última esperança, talvez não fosse a melhor, mas não tinha o direito de escolher naquele momento. A única coisa que sabia era que queria ver seu filho de novo. Precisava ver ele de novo.Então seguiu até a casa de uma mulher misteriosa que surgiu em seu caminho outra noite lhe dizendo que poderia trazer seu filho de volta. Não precisava pensar muito para perceber que havia algo oculto em sua fala, mas a mulher estava em um beco sem saída e já não restava muita sanidade.Ao chegar no local senti um arrepio em sua espinha. Parecia que aquela casa tinha saído direto de algum filme de terror; a tinta já estava desgastada, havia teias de aranha por toda parte e podia jurar ter visto um rato em decomposição ao lado de um arbusto. Até mesmo o pequeno anão de jardim perto da porta era horripilante.Quando chegou mais perto, a porta se abriu sozinha, como se fosse-lá-o-que-for estivesse esperando sua presença a muito tempo. Sentiu um cheiro forte de mofo invadir suas narinas assim que colocou o primeiro pé na casa. Martha saiu por um momento, mas antes que podesse dar a volta ouviu a porta se fechar com um barulho estrondoso.— Olá, minha querida! — disse a mulher em um tom de profissional — sente-se.A mulher indicou para a cadeira a sua frente na mesa e assim Martha o fez.— Fico feliz que tenha finalmente se decidido. — disse com um pequeno sorriso nos lábios.Diana tinha uma aparência um tanto quanto peculiar. As bolsas debaixo de seus olhos eram visíveis de longe e seu rosto era envelhecido e extremamente pálido, mas havia algo extremamente atraente nela, algo que permitia as pessoas quase que hipnotizadas.— O que você disse era verdade? Você realmente consegue trazer o meu Nathaniel de volta? Apenas diga sim ou não! — exclamou enquanto sentia seus olhos se encherem d'água e seu coração apertava cada vez mais. Era quase sufocante. — não posso vi ---Antes que podesse continuar com suas lamentações foi interrompida pela outra que colocou o dedo em seus lábios em um pedido de silêncio. Martha sentiu um desconforto enorme sentindo aquela mão gelada em si, por um momento se perguntou se Diana realmente estava viva.— Se acalme. Tudo o que precisa fazer é assinar esse contrato e, puff, terá seu filho com você assim que ele estiver pronto para reviver.Diana entregou os papéis para a assinatura de Whispers e todo seu corpo magro tremia em ansiedade. Seus olhos estavam arregalados e não conseguiram desgruda-los do contrato.— É pegar ou largar, Sra. Whispers.Martha segurou firme a caneta e mordeu o lábio inferior ponderando por um segundo se Nathaniel iria querer aquilo. E então selou o acordo.Logo em seguida senti a pouca força que ainda lhe restava se esvaindo como grãos de areia. Parecia que algo arranhava seus braços e pernas e de repente a áurea do lugar ficou ainda mais obscura. Diana aparentemente se divertia com tudo aquilo enquanto Martha não era capaz nem sequer de gritar por socorro. Sua voz havia se sumido.— Vocês humanos são tão ingênuos. Sempre esquecem que tudo tem um preço.E então o corpo antes tão frágil de Diana começou a se transformar junto com uma nuvem de fumaça. Em um piscar de olhos ela havia virado uma criatura demoníaca de quase três metros, completamente deformada e tão escura quanto o céu sem estrelas. Sua pele era viscosa, possuía asas quebradas e uma porção de olhos, que, se olhasse com atenção, poderia ver o próprio inferno através deles.una anima pro alio. — disse com sua voz grave fazendo com que todas as almas que vagavam por ali gemessem com temor.A criatura não pensou duas vezes antes de engolir Martha com sua escuridão profunda.- -A rota 66 sem dúvidas havia sido a estrada mais usada em 1960, então por que parecia que ninguém se lembrava dela? Era como se tivesse sido apagada da memória de todos. Momentos de felicidade, tristeza, raiva, recordações de viagens, tudo simplesmente foi embora. Todas as lembranças feitas ali foram destruídas, exceto por uma. A única que realmente queria ser esquecida foi obrigada a permanecer. Uma lembrança de dor e frustração que passeava junto das folhas secas, tão frágil quanto cristal.Algumas vezes durante fortes tempestades podia-se ouvir o choro da alma vazia e atormentada que lagava ali. A alma que foi impedida de se liberar e ter seu devido descanso.O inverno de 2014 parecia ser apenas mais um dia normal e apático naquele lugar congelado no tempo, quando de repente algo diferente de murmúrios foi-se ouvido pela primeira vez em décadas. O rádio do carro de algum jeito ainda funcionava mesmo após ter batido contra outro veículo, mas dessa vez tocava little black dress da One Direction ao invés de Johnny B. Goode.O jovem viu uma imensidão de almas condenadas se transformarem em imagens turvas de seu cadillac e o sentimento de vazio já parecia mais com uma desidratação e fome infernal.Ele não fazia idéia de como estava de volta, mas não achava que conseguiria viver normalmente após de tudo o que presenciou em anos preso no limbo.Sentiu algo escorrendo por seu resto e quando foi limpar percebeu que se tratava de um líquido preto. Se levantou o mais rápido que pode de um jeito desengonçado e olhou seu reflexo em alguns cacos do espelho do retrovisor. Quase caiu para trás quando viu seu olho direito completamente negro.Ele não sabia, mas seu olho estava exatamente como os olhos da criatura que matou sua mãe. Aquilo serviria para lembrá-lo de que, não importava para onde ele fosse, ou quanto tempo passasse, "Diana" sempre estaria com ele. Estava fadado a ter uma alma quebrada para toda a eternidade.


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